Editorial · Educação · Dia dos Professores
Tutoria educacional: recuperar a aprendizagem é enfrentar a desigualdade
O Brasil precisa transformar o apoio individualizado em compromisso permanente, com professores valorizados, financiamento contínuo e resultados verificáveis.

Uma escola pode assegurar matrícula, frequência e aprovação sem conseguir garantir que todos os estudantes aprendam. Quando isso acontece, a exclusão permanece dentro da sala de aula: o aluno acompanha o calendário, mas perde progressivamente as condições de compreender o que lhe é ensinado. Enfrentar essa distância entre estar na escola e aprender precisa ocupar o centro das decisões educacionais brasileiras.
Defendo a tutoria educacional como uma estratégia fundamental desse enfrentamento. O acompanhamento individualizado ou em grupos reduzidos permite identificar dificuldades específicas, retomar conhecimentos essenciais e oferecer devolutivas que uma turma numerosa nem sempre comporta. Seu valor está em reconhecer o ponto de partida de cada estudante e construir condições para que ele avance.
Em matemática, essa atenção é decisiva. Dificuldades com o sistema de numeração, as operações e as frações comprometem aprendizagens posteriores. Exigir que o estudante acompanhe conteúdos cada vez mais complexos sem reconstruir essas bases aprofunda a distância entre o currículo e suas possibilidades reais de compreensão.
A experiência paulista oferece elementos relevantes para esse debate. Segundo a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, o projeto Professor Tutor dos anos finais começou, em 2024, com um piloto em 200 escolas. O desenho divulgado para 2025 previa turmas multisseriadas de até 15 estudantes, com três aulas semanais presenciais, no turno regular. Trata-se de uma resposta organizada a dificuldades que não deveriam permanecer invisíveis. [1][2]
Os sinais divulgados pela administração são animadores. Em comunicação oficial de setembro de 2026, o governo paulista informou que estudantes atendidos pela tutoria apresentaram, em avaliações diagnósticas, uma velocidade de evolução de 1,7 a 2,9 vezes superior à média regular. A informação merece atenção, mas não equivale a um percentual de redução das defasagens em matemática: são indicadores distintos, cuja interpretação exige conhecer os testes, os grupos comparados e o período analisado. [3]
Essa precisão protege o debate público. Uma melhora entre a avaliação inicial e a final pode refletir a contribuição da tutoria, o ensino regular e outras intervenções. Para estimar quanto do avanço foi provocado pelo programa, precisamos de uma comparação confiável com o que ocorreria sem ele. Da mesma forma, resultados gerais do Saresp não isolam, por si, o efeito dos tutores.
Há também desafios persistentes. Em balanço da própria Seduc-SP sobre 2025, estudantes avaliados em março e junho apresentaram avanços concentrados dentro de um patamar de conhecimentos associado ao 2º ano do ensino fundamental, sem ultrapassá-lo naquele intervalo. É possível aprender e continuar com grande defasagem. A política precisa reconhecer ambos os fatos para dimensionar a duração e a intensidade do atendimento. [1]
As evidências internacionais fortalecem a defesa da tutoria. A meta-análise de Andre Nickow, Philip Oreopoulos e Vincent Quan, publicada em 2024 no American Educational Research Journal, encontrou efeito médio positivo de 0,288 desvio-padrão. A síntese reúne 89 estudos experimentais randomizados. Esse número expressa uma diferença padronizada de desempenho entre grupos; não representa 28,8% a mais de aprendizagem. Os efeitos tenderam a ser maiores em programas realizados durante o horário escolar, ao menos três dias por semana, e com professores ou profissionais de apoio pedagógico como tutores. [4]
A pesquisa sustenta uma direção, sem oferecer garantia automática para qualquer implementação. Turmas de até 15 estudantes, como as previstas no desenho paulista, não devem ser equiparadas sem avaliação ao atendimento individual ou a grupos de dois ou três alunos. Tamanho do grupo, formação, frequência, material e continuidade alteram as possibilidades de personalização.
Também é necessário compreender por que essa política pode reduzir desigualdades. Famílias com mais recursos conseguem contratar aulas particulares e outras formas de apoio. Quando a escola pública oferece acompanhamento qualificado aos estudantes que mais precisam, amplia o acesso a uma oportunidade distribuída de maneira desigual. Para cumprir essa função, o programa deve alcançar também quem falta, enfrenta barreiras de transporte ou necessita de recursos de acessibilidade.
Defendo que o Brasil consolide essa agenda em regime de colaboração. Já existe uma base institucional: o Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens, instituído pelo Decreto nº 12.391, de 28 de fevereiro de 2025. Seu desenho prevê colaboração federativa, avaliação, formação e apoio técnico e financeiro. A proposta deve ser dar efetividade e continuidade a essa estrutura, incorporando modelos de tutoria testados nos diferentes contextos do país. [5]
Isso exige diagnóstico pedagógico que oriente a ação. O professor precisa saber quais habilidades o estudante domina, onde encontra obstáculos e como acompanhar seu progresso. Os agrupamentos devem ser flexíveis, revistos periodicamente e livres de rótulos permanentes. A tutoria deve criar caminhos de participação mais plena nas aulas regulares.
Exige também investimento nos profissionais. Tutores precisam de formação específica, remuneração adequada, tempo de planejamento e diálogo com os docentes da turma. Universidades podem colaborar com pesquisa e formação supervisionada. A expansão precisa preservar a responsabilidade pedagógica e oferecer apoio a quem ensina.
Proponho financiamento plurianual, com atenção especial às redes de menor capacidade fiscal e aos territórios de maior vulnerabilidade. O orçamento deve considerar materiais, espaços, acessibilidade, acompanhamento e condições de frequência. A continuidade do atendimento não pode depender exclusivamente de projetos passageiros ou da troca de gestores.
A inteligência artificial pode colaborar na preparação de atividades e no apoio ao trabalho docente, desde que seu uso seja supervisionado e avaliado. Um experimento publicado em 2025 na PNAS, realizado com estudantes de matemática do ensino médio na Turquia, mostrou que melhorar a resolução de exercícios com auxílio de IA não garante aprendizagem autônoma. O acesso sem salvaguardas prejudicou o desempenho posterior sem a ferramenta; uma versão com restrições pedagógicas mitigou esse efeito negativo. O resultado recomenda prudência e não autoriza generalizações para toda tecnologia educacional. [6]
Por isso, defendo ferramentas que estimulem o raciocínio, ofereçam pistas graduais e permitam revisão pelo professor. Sua adoção deve considerar proteção de dados, acessibilidade e avaliação de aprendizagem sem assistência. Distribuir respostas prontas pode elevar o número de tarefas concluídas enquanto mantém intocadas as dificuldades do estudante.
Avaliações independentes e transparentes devem acompanhar a expansão. É necessário publicar métodos, custos, frequência, perdas de acompanhamento e resultados por diferentes grupos de estudantes, preservando sua identidade. Sempre que viável, avaliações experimentais ou desenhos quase experimentais robustos devem estimar os efeitos. Resultados desfavoráveis também precisam ser divulgados para orientar correções.
Uma política comprometida com a equidade deve perguntar quem avançou e quem continuou para trás. A média pode melhorar enquanto estudantes com maiores dificuldades permanecem sem atendimento suficiente. Aprendizagem duradoura, participação, permanência e custo por resultado precisam orientar decisões de continuidade e expansão.
Neste 15 de outubro, Dia dos Professores, cabe uma pergunta necessária: o professor brasileiro tem o que comemorar? Há avanços concretos a reconhecer. A Lei nº 15.437/2026 estabeleceu o piso nacional do magistério público da educação básica em R$ 5.130,63, referência para a jornada de 40 horas semanais, com proporcionalidade para jornadas menores, e explicitou a inclusão dos profissionais contratados por tempo determinado. A Lei nº 15.344/2026 instituiu a Política Nacional de Indução à Docência — Mais Professores para o Brasil —, e iniciativas como o Pé-de-Meia Licenciaturas buscam apoiar a formação e atrair novos profissionais. São conquistas relevantes, com públicos e critérios próprios, que não alcançam automaticamente todos os docentes, inclusive os do ensino superior. Celebrá-las exige acompanhar sua execução: a existência de uma lei ou de uma bolsa não comprova, por si, melhoria generalizada das condições de trabalho. Defendo que esses avanços se traduzam em cumprimento do piso, carreiras atrativas, formação continuada dentro da jornada, tempo de planejamento, proteção à saúde e segurança nas escolas. Temos motivos para reconhecer conquistas e razões para cobrar sua efetivação. A recuperação da aprendizagem será mais consistente quando vier acompanhada da valorização de quem ensina. [7][8][9]
Como professor, considero inaceitável naturalizar que um estudante avance de série acumulando conhecimentos que a escola ainda não conseguiu lhe assegurar. A tutoria estruturada oferece uma oportunidade concreta de intervir nesse percurso. Para realizá-la, precisamos unir evidência científica, responsabilidade pública e compromisso com cada trajetória.
Garantir educação de qualidade exige presença, investimento e continuidade. Recuperar a aprendizagem é devolver ao estudante condições de compreender, participar e construir seu futuro. Nenhuma criança ou jovem deveria atravessar a escola carregando sozinho uma dificuldade que o país tem o dever de ajudar a superar. Neste Dia dos Professores, a homenagem mais consequente é transformar reconhecimento em condições concretas de trabalho. Valorizar o professor é sustentar, todos os dias, o direito de aprender.
Fontes e referências
- Seduc-SP. Educação amplia recomposição da aprendizagem em parceria com Harvard. https://www.educacao.sp.gov.br/educacao/noticias/educacao-amplia-recomposicao-da-aprendizagem-em-parceria-com-harvard
- Seduc-SP. Saresp: São Paulo avança em matemática em todas as séries do Fundamental desde o início da gestão. https://www.educacao.sp.gov.br/educacao/noticias/saresp-sao-paulo-avanca-em-matematica-em-todas-as-series-do-fundamental-desde-o-inicio-da-gestao
- Governo de São Paulo. Desempenho de SP em leitura no Pisa é o mais próximo ao indicador da OCDE. Dado de tutoria atribuído à comunicação governamental; não utilizado como comprovação causal independente. https://www.sp.gov.br/sp/canais-comunicacao/noticias/desempenho%2Bde%2Bsp%2Bem%2Bleitura%2Bno%2Bpisa%2Be%2Bo%2Bmais%2Bproximo%2Bao%2Bindicador%2Bda%2Bocde
- Nickow, A.; Oreopoulos, P.; Quan, V. The Promise of Tutoring for PreK–12 Learning. American Educational Research Journal, 2024. https://doi.org/10.3102/00028312231208687 — Síntese dos 89 estudos: https://nssa.stanford.edu/studies/promise-tutoring-prek-12-learning-systematic-review-and-metaanalysis-experimental-evidence
- Brasil. Decreto nº 12.391/2025. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/decreto/d12391.htm
- Bastani, H. et al. Generative AI without guardrails can harm learning: Evidence from high school mathematics. PNAS, 2025. https://doi.org/10.1073/pnas.2422633122
- Brasil. Lei nº 15.437/2026 — piso do magistério público da educação básica. https://planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/lei/l15437.htm
- Brasil. Lei nº 15.344/2026 — Política Nacional de Indução à Docência. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/lei/l15344.htm
- Capes. Publicado edital do Pé-de-Meia Licenciaturas 2026. https://www.gov.br/capes/pt-br/assuntos/noticias/publicado-edital-do-pe-de-meia-licenciaturas-2026/
Fontes consultadas em 15 de outubro de 2026. Este texto expressa a opinião do autor.