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Sharenting: quando o amor vira risco — e a internet não esquece
Por Prof. Roque Cortes Pereira
Sharenting: quando o amor vira risco — e a internet não esqueceA necessária pausa antes de postar
Vivemos em uma era em que cada conquista, gracinha ou momento especial das crianças parece pedir uma foto. Pais registram, celebram e — quase automaticamente — compartilham. Mas a fronteira entre carinho e exposição excessiva se tornou mais tênue do que nunca.
A campanha “Pause Before You Post”, lançada pela Data Protection Commission da Irlanda (DPCIreland), lança luz sobre um problema crescente: o sharenting, a prática de pais compartilharem fotos, vídeos e informações dos filhos nas redes sociais sem avaliar plenamente as consequências.
E o dado central é alarmante: pais publicam, em média, 63 fotos dos filhos por mês. Somente esse número já seria suficiente para acender o alerta. Mas a campanha traz algo ainda mais grave: apenas 20 fotos são necessárias para gerar um deepfake convincente de uma criança.
É a primeira vez que a relação entre compartilhamento familiar e tecnologia de manipulação digital é apresentada de forma tão direta, clara e perturbadora.
O que começa como afeto pode virar ameaça
O impacto do sharenting não está apenas no excesso de imagens. Está no conjunto de informações que uma foto pode revelar sem que os pais percebam.
A campanha evidencia exatamente isso: detalhes aparentemente inocentes —
- nome na mochila,
- uniforme da escola,
- rua da foto,
- horário de atividades,
- colegas que aparecem ao fundo —
podem ser suficientes para que desconhecidos reconstruam a rotina e até a localização de uma criança.
Em um mundo hiperconectado, cada “post” acrescenta uma peça a um quebra-cabeça que não deveria estar disponível para todos.
Quando o perigo vem de onde menos se espera
Talvez o dado mais chocante apresentado pela campanha seja este:
Metade das fotos de crianças encontradas em fóruns criminosos veio originalmente… dos próprios pais.
Ou seja: o risco não está apenas no que é compartilhado, mas principalmente no percurso que esse conteúdo faz depois que entra na internet — um percurso impossível de controlar.
A boa intenção dos pais contrasta com o uso malicioso que terceiros podem fazer dessas imagens. A campanha mostra que, na prática, o elo mais frágil da proteção infantil pode ser justamente o excesso de confiança no ambiente digital.
A internet não esquece — mas os pais podem repensar
A iniciativa “Pause Before You Post” não demoniza a tecnologia. Ao contrário: ela propõe um convite simples e poderoso:
antes de postar, faça uma pausa. Pergunte-se: isso protege ou expõe minha criança?
Não se trata de proibir, mas de consciencializar.
Algumas reflexões sugeridas pela campanha:
- Esta foto revela identidade, localização ou rotina?
- Eu estaria confortável se essa imagem fosse parar nas mãos de desconhecidos?
- Meu filho, no futuro, gostaria de ter esse conteúdo público?
- O que ganho ao postar? E o que posso perder?
Essa pausa pode ser a linha tênue entre segurança e vulnerabilidade.
A responsabilidade digital também é um ato de amor
A campanha irlandesa acerta ao deslocar o debate da censura para o cuidado.
Compartilhar menos não significa amar menos — significa proteger mais.
A responsabilidade digital dos pais hoje é tão importante quanto ensinar a atravessar a rua ou usar cinto de segurança.
O risco não está no clique da câmera, mas no impulso de “publicar” sem refletir.
A infância merece ser documentada, mas não explorada.
Celebrada, mas não exposta.
Vivida, e não arquivada em servidores desconhecidos.
Conclusão
O sharenting é um fenômeno que nasce do afeto, mas pode terminar em vulnerabilidade.
A campanha “Pause Before You Post” lembra que, no universo digital, imagens não se apagam e dados não voltam para o lugar de onde vieram.
Se o amor pelos filhos é o que nos move a registrá-los, que seja também o que nos move a protegê-los.
Antes de postar, pause.
Antes de expor, pense.
A internet não esquece — mas nós podemos escolher o que ela vai lembrar.