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RCP FUTURO · INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E EDUCAÇÃO · ARTIGO 03

O professor continua essencial: tecnologia apoia; educadores formam

A inteligência artificial já participa do planejamento de aulas, da produção de materiais e das atividades de aprendizagem. Formar pessoas, porém, exige conhecimento, vínculos e responsabilidade. Entre algoritmos e desafios sociais, o professor permanece central em uma educação que desenvolve autonomia e preserva sua dimensão humana.

O professor continua essencial — tecnologia apoia; educadores formam. RCP FUTURO, Artigo 03.
Ilustração editorial fornecida pelo autor para o RCP News; não representa uma escola ou pessoas identificadas.

A revolução tecnológica encontra uma missão humana

Uma ferramenta de inteligência artificial pode explicar um conceito científico, elaborar exercícios, traduzir textos, sugerir estratégias de ensino e organizar materiais didáticos. Pode adaptar uma explicação a diferentes níveis de dificuldade e apoiar a preparação de aulas. Tudo isso amplia possibilidades, mas não encerra a discussão educacional.

A pergunta fundamental é outra: se a tecnologia consegue oferecer informações, quem assume a responsabilidade de transformá-las em formação humana? A resposta continua passando pelo professor, pelo trabalho coletivo da escola e pelas condições que a sociedade oferece à educação.

Educar envolve conhecimentos, experiências, relações, valores e responsabilidades. Ensinar exige compreender o estudante em sua realidade, identificar dificuldades, reconhecer potencialidades, construir vínculos e orientar percursos. Essas dimensões não podem ser avaliadas apenas pela velocidade com que uma resposta é produzida.

A presença da IA não torna o educador dispensável. Ao ampliar a capacidade de produzir conteúdos, ela torna ainda mais necessária a atuação de profissionais preparados para examinar sua qualidade, orientar seu uso e acompanhar aquilo que os estudantes efetivamente aprendem.

Este terceiro artigo do Capítulo I do RCP FUTURO dá continuidade à discussão sobre aprendizagem e autonomia: depois de perguntar se responder é aprender, precisamos compreender quem sustenta a responsabilidade de ensinar.

1. Informação não é formação

A figura do professor costuma ser associada à transmissão de conhecimentos. Explicar conteúdos continua sendo relevante, mas nunca representou a totalidade do trabalho docente. O educador ajuda o estudante a compreender por que um conhecimento importa, como se relaciona com a realidade e de que maneira pode ser utilizado com responsabilidade.

Uma plataforma pode apresentar explicações sobre um fenômeno histórico. O professor promove o exame de suas causas, consequências, interpretações e implicações éticas. Um sistema pode resolver um problema matemático; o educador precisa verificar se o aluno compreendeu o procedimento e consegue aplicá-lo em outra situação.

Uma ferramenta também pode produzir um texto argumentativo. Cabe ao trabalho pedagógico estimular a elaboração de argumentos próprios, a conferência de evidências e a capacidade de justificar uma posição. O produto entregue é uma parte da avaliação; o percurso de compreensão também precisa aparecer.

Informar é disponibilizar conhecimentos. Formar é desenvolver a capacidade de compreender, questionar e utilizar o que se aprende. É nessa dimensão que o trabalho do professor encontra uma de suas expressões mais importantes.

2. A IA já integra o trabalho de professores brasileiros

A pesquisa internacional TALIS 2024, cujos resultados foram publicados pela OCDE em 2025, oferece um retrato dessa mudança. Na nota referente ao Brasil, 56% dos professores dos anos finais do ensino fundamental abrangidos pelo levantamento relataram ter utilizado IA no trabalho, diante de uma média de 36% na comparação da OCDE. O questionário considera o uso nos 12 meses anteriores à pesquisa. [1]

Entre os usuários, aparecem atividades de planejamento, adaptação de materiais e síntese de informações. O mesmo levantamento registra que 39% dos docentes brasileiros indicaram elevada necessidade de desenvolvimento profissional em competências para utilizar IA no ensino e na aprendizagem. [1]

Esses números descrevem respostas dos participantes dentro da população-alvo da TALIS. Não representam, indistintamente, todos os professores brasileiros e não demonstram, por si sós, qualidade pedagógica ou melhora da aprendizagem.

A leitura conjunta dos dados é relevante: ferramentas já participam da rotina profissional, enquanto a formação continua sendo uma necessidade expressiva. O acesso à tecnologia precisa vir acompanhado de tempo para estudar, apoio institucional e critérios claros de aplicação.

A transformação educacional não pode depender apenas da iniciativa de professores que procuram aprender por conta própria. Redes de ensino e instituições também precisam assumir suas responsabilidades.

3. A UNESCO propõe competências para fortalecer a atuação docente

Em 2024, a UNESCO publicou seu referencial de competências em inteligência artificial para professores. O documento reúne 15 competências em cinco dimensões: perspectiva centrada no ser humano, ética da IA, fundamentos e aplicações, pedagogia com IA e desenvolvimento profissional. [3]

O referencial oferece uma orientação para programas de formação. Seu alcance ultrapassa o domínio de comandos: envolve compreender possibilidades, riscos e responsabilidades, além de decidir quando uma tecnologia faz sentido para determinado objetivo educacional.

A abordagem da UNESCO valoriza a agência humana. Isso significa que professores e estudantes precisam manter condições de compreender e influenciar as decisões que os afetam. A autonomia profissional exige conhecimento, apoio e capacidade real de escolha. [3]

Para gestores e fornecedores, a pergunta também deve ser pedagógica: a ferramenta contribui para aprender? É adequada à idade e ao contexto? Respeita direitos, acessibilidade e privacidade? Quais evidências sustentam sua adoção?

A tecnologia deve servir aos objetivos da educação. Comprar uma plataforma não resolve, isoladamente, a formação de pessoas nem substitui uma política de valorização dos profissionais que ensinam.

4. O vínculo humano também ensina

Há estudantes que precisam de uma explicação adicional. Outros necessitam de incentivo para recuperar a confiança. Algumas dificuldades se relacionam a condições de acesso, insegurança, contexto familiar ou ausência de oportunidades, e não apenas à compreensão de um conteúdo.

A prática docente exige atenção a essas circunstâncias. Uma pergunta, uma mudança de comportamento ou uma dificuldade persistente pode indicar que o acompanhamento precisa ser revisto. Essa percepção se constrói na convivência, na escuta e no conhecimento da trajetória do aluno.

Ferramentas digitais podem ajudar a organizar registros e identificar padrões. Entretanto, seus resultados exigem interpretação. Uma classificação automatizada não explica sozinha as razões de um desempenho nem pode definir o valor ou o futuro de uma pessoa.

Decisões sobre acolhimento, acompanhamento e intervenção precisam ser conduzidas por profissionais preparados, em articulação com a equipe escolar e os serviços pertinentes. O professor participa desse cuidado sem substituir atribuições de outras áreas.

Educar também significa reconhecer a pessoa por trás de cada resultado. A exigência acadêmica pode conviver com respeito, critérios transparentes e oportunidades de desenvolvimento.

5. Aprender continuamente faz parte da profissão

Defender a importância do professor também significa assegurar oportunidades de atualização. Educadores precisam compreender o que os sistemas generativos conseguem fazer, onde podem falhar e como conferir informações, referências e recomendações.

Essa preparação inclui proteção de dados, vieses, acessibilidade, autoria e adequação etária. Envolve também construir formas de avaliação que permitam observar o raciocínio em um ambiente no qual estudantes podem recorrer a ferramentas capazes de produzir textos, imagens e soluções.

Não basta aprender a formular comandos. É necessário saber quando utilizar o recurso, qual aprendizagem se pretende desenvolver e como verificar o resultado. Em certas atividades, a IA pode ser permitida com declaração de uso; em outras, pode ser necessário demonstrar uma habilidade sem esse apoio.

As regras devem ser compreensíveis e informadas previamente. A autonomia do professor também pressupõe condições para adaptar ou recusar uma ferramenta inadequada, com base em critérios profissionais.

A formação continuada precisa integrar a carreira e a organização do trabalho. Exigir novas competências sem oferecer tempo e apoio transforma uma oportunidade em responsabilidade adicional sem condições de execução.

6. A tecnologia pode ajudar a recuperar tempo pedagógico

Uma possibilidade relevante está no apoio a tarefas repetitivas: organizar materiais, elaborar uma primeira versão de atividade ou estruturar informações administrativas. A utilidade depende da tarefa, da ferramenta e do tempo necessário para revisar e corrigir o resultado.

Quando há economia efetiva de tempo, ela pode favorecer acompanhamento individual, orientação de projetos, diálogo com estudantes e planejamento coletivo. Esse benefício, contudo, não é automático e precisa ser observado na prática.

Se a adoção vier acompanhada apenas de novas exigências, aumento de turmas ou mais procedimentos de controle, a sobrecarga pode permanecer ou crescer. A avaliação institucional deve considerar o trabalho que a tecnologia retira e aquele que acrescenta.

O tempo recuperado deve contribuir para o cuidado com a aprendizagem e com as pessoas. Essa é uma escolha de gestão, que exige participação dos professores e acompanhamento de seus efeitos.

7. A responsabilidade pedagógica continua humana

Sistemas automatizados podem apresentar erros factuais, reproduzir vieses ou sugerir atividades inadequadas. A aparência de segurança de uma resposta não dispensa sua conferência.

Uma ferramenta pode propor uma atividade; o professor examina sua pertinência. Pode elaborar questões; o educador verifica clareza, dificuldade e adequação aos objetivos. Pode oferecer uma análise de desempenho; a equipe precisa avaliar a confiabilidade dos dados e os limites da interpretação.

Dados pessoais e relatos sensíveis de estudantes exigem cuidado desde o planejamento. Antes de inseri-los em serviços externos, a instituição deve verificar necessidade, finalidade, condições de tratamento e suas próprias regras. Sempre que possível, atividades demonstrativas podem utilizar informações fictícias e não identificáveis.

Transparência também é importante: estudantes e famílias precisam compreender, de maneira apropriada, quando e para que um sistema automatizado está sendo utilizado. A decisão pedagógica precisa ter responsáveis identificáveis e possibilidade de revisão.

8. Valorizar os professores exige enfrentar problemas anteriores à IA

Na TALIS 2024, 14% dos docentes brasileiros no recorte analisado concordaram ou concordaram plenamente com a afirmação de que os professores são valorizados na sociedade. Trata-se da percepção declarada pelos participantes, e não de uma medição direta da opinião da população brasileira. [1]

Esse dado precisa entrar no debate. Não é coerente atribuir aos educadores a condução de uma transformação profunda sem assegurar reconhecimento, preparação e condições adequadas de trabalho.

Valorização envolve remuneração, carreira, infraestrutura, segurança, autonomia e participação nas decisões. Também exige reconhecer a dimensão intelectual e relacional da docência, que não se resume ao cumprimento de indicadores.

O relatório global da UNESCO sobre professores discute desafios de atração, formação e permanência na profissão. A tecnologia integra esse contexto, mas não substitui políticas sustentadas para enfrentá-lo. [4]

A modernização precisa alcançar as condições de ensinar e aprender. Caso contrário, a ferramenta mais recente pode apenas se somar a dificuldades antigas.

9. A formação ética permanece indispensável

O desenvolvimento tecnológico amplia capacidades, mas não determina como elas serão utilizadas. Por isso, a educação precisa continuar formando pessoas capazes de examinar consequências, respeitar diferenças e assumir responsabilidades.

O professor participa desse processo ao promover o diálogo, a convivência democrática, a honestidade intelectual e o cuidado com a coletividade. Estudar um dilema ético é diferente de apenas receber uma lista de respostas possíveis: exige interpretar situações e justificar escolhas.

A IA pode apoiar pesquisas e apresentar perspectivas. A escola precisa criar experiências nas quais essas perspectivas sejam examinadas, discutidas e relacionadas à vida social.

Preparar para o trabalho é uma finalidade importante da educação. Formar cidadãos com autonomia para pensar, cooperar e participar também é. A inovação precisa contribuir para esse conjunto de responsabilidades.

10. Uma agenda para fortalecer quem ensina

Proponho seis prioridades para uma incorporação responsável da IA à educação brasileira:

  • Formação continuada acessível, adequada às diferentes etapas de ensino e integrada à jornada profissional.
  • Infraestrutura e acessibilidade, para que novas ferramentas não aprofundem desigualdades de participação.
  • Regras claras sobre dados pessoais, autoria, avaliação e usos permitidos em cada atividade.
  • Avaliação de resultados, com atenção à aprendizagem, aos riscos e ao trabalho adicional gerado.
  • Participação docente, assegurando autonomia para escolher, adaptar e questionar recursos.
  • Valorização da profissão, com políticas de carreira e condições de trabalho que sustentem as demais mudanças.

Essas prioridades constituem uma proposta editorial. Sua aplicação exige adaptação às redes de ensino, às condições locais e às evidências disponíveis.

Nenhuma tecnologia encerra o significado de ensinar

Novos sistemas continuarão ampliando a capacidade de produzir conteúdos e apoiar atividades. Essas possibilidades merecem estudo e aproveitamento responsável. O critério para sua adoção deve ser aquilo que permitem desenvolver nas pessoas.

Uma ferramenta pode oferecer informações; o educador ajuda o estudante a examiná-las. Um sistema pode sugerir caminhos; o professor acompanha a compreensão das escolhas. Um algoritmo pode identificar padrões; a equipe precisa reconhecer contextos, limites e possibilidades.

A educação pode reunir o melhor dos recursos tecnológicos com a experiência e a responsabilidade de quem ensina. Para isso, precisa investir na formação dos profissionais e manter a aprendizagem como finalidade.

O professor continua essencial porque educar envolve contribuir para aquilo que o outro poderá se tornar. Conhecimento, sensibilidade, responsabilidade e compromisso permanecem no centro dessa missão.

Tecnologia apoia. Educadores formam.

Prof. Roque Cortes Pereira

Ensinar é transmitir conhecimento. Inspirar é deixar legado.

Fontes e referências

  1. OCDE — Results from TALIS 2024: Brazil (nota por país), 2025
  2. OCDE — Results from TALIS 2024: The State of Teaching, 2025
  3. UNESCO — AI Competency Framework for Teachers, 2024
  4. UNESCO — Global Report on Teachers: Addressing Teacher Shortages and Transforming the Profession, 2024

Nota editorial: os percentuais da TALIS correspondem ao recorte de docentes dos anos finais do ensino fundamental abrangido pelo levantamento. São respostas autorrelatadas, não uma avaliação causal da IA sobre a aprendizagem. O texto distingue dados de pesquisa, orientações institucionais e propostas do autor. Fontes consultadas em 28/10/2026.

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