RCP News · Acervo
O Japão para além do gramado
O Japão para além do gramado:
De quatro em quatro anos, o mundo assiste a um fenômeno que insiste em nos surpreender, embora já devesse ser a norma. Refiro-me ao hábito dos torcedores japoneses que, ao término de cada partida de futebol, sacam suas sacolas plásticas e recolhem meticulosamente o lixo das arquibancadas. Para o olhar ocidental, habituado ao espetáculo do desleixo festivo, a cena beira o inacreditável. Contudo, reduzir esse gesto a um mero capricho desportivo é ignorar o oceano de profundidade cultural que existe para além do gramado.
Aquela arquibancada limpa está longe de ser o resultado de uma ordem estatal de última hora ou de um marketing de aparências; é o fruto maduro de uma árvore cujas raízes estão fincadas na mais pura essência da cidadania e da responsabilidade individual.
Para compreender o Japão, precisamos abandonar a lente do individualismo hipertrofiado que hoje adoece o Ocidente. Imaginemos a sociedade japonesa como um relógio de alta precisão. Cada cidadão é uma engrenagem autônoma, com formato, tamanho e valor próprios. No entanto, essa engrenagem compreende que o seu movimento individual só faz sentido se contribuir para o funcionamento perfeito do todo.
Diferente do que pregam certas correntes ideológicas coletivistas, o respeito ao bem-comum no Japão não anula o indivíduo. Pelo contrário, ele o eleva. O zelo pelo espaço público nasce da premissa de que a propriedade coletiva é uma extensão da própria casa. Quando um japonês cuida da rua, ele não está servindo ao Estado; ele está servindo ao seu semelhante, ao seu vizinho, e a si mesmo. É o ápice da maturidade liberal e conservadora: a percepção de que a liberdade individual é indissociável da responsabilidade social.
Viver em comunidade não é diluir a própria identidade no coletivo, mas sim lapidá-la para que ela sirva de alicerce seguro para o outro.
Essa postura civilizatória não brota por geração espontânea. Ela é cultivada desde o berço e estruturada nas salas de aula através do conceito de Osouji — o momento em que os próprios alunos limpam suas escolas.
Enquanto no Ocidente muitas vezes terceirizamos a educação moral e cívica para o governo ou para burocratas, o modelo japonês nos ensina que a verdadeira ordem social se constrói na base: na família e na comunidade. É uma lição viva de que o progresso econômico e tecnológico — campos onde o Japão é soberano — é estéril se não for ancorado por um desenvolvimento moral correspondente.
Ao observarmos a comunidade japonesa, somos inevitavelmente confrontados com as nossas próprias fraturas sociais. Costumamos clamar por direitos esquecendo-nos, com frequência alarmante, dos nossos deveres mais basilares. Reclamamos da corrupção nos altos escalões, mas ignoramos o pequeno papel de bala jogado na calçada, o desrespeito às leis de trânsito ou a falta de empatia no transporte público.
A grande reflexão que o Japão nos propõe vai muito além do futebol. Ela nos provoca a entender que a verdadeira soberania de uma nação se mede pela saúde de suas relações comunitárias. Cuidar do outro não é um ato de caridade isolado; é uma estratégia de sobrevivência e prosperidade cultural.
Que possamos olhar para além das linhas do campo e enxergar que o verdadeiro “gol de placa” do Japão ocorre no cotidiano silencioso de seu povo. É hora de importarmos essa tecnologia social, compreendendo que um país forte e livre se constrói com ordem, educação e o entendimento definitivo de que o espaço de todos começa no respeito de cada um.
LUÍS MÁRIO LUCHETTA é graduado na Faculdade Católica de Administração e Economia – FAE, em Ciências Contábeis, desde 1984. É pós-graduado em Planejamento Empresarial, também pela FAE, em 1985, e em Marketing Empresarial pela UFPR em 1995. Empresário atuante, inovador e participativo do Setor de tecnologia da informação desde 1986, e é Associado fundador do Instituto das Cidades Inteligentes-ICI. Também é Conselheiro de Administração e Fiscal certificado do IBGC. É Grão-Mestre Honorário do Grande Oriente do Brasil Paraná – GOB-PR
Direto da Redação RCP News