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Jigoro Kano e a Obra que o Tempo Não Fragmentou


POR QUE O JUDÔ KODOKAN NÃO SE FRAGMENTOU EM INÚMEROS ESTILOS E NÃO SE MERCANTILIZOU COMO ESPETÁCULO?

“Uma reflexão sobre a genialidade de Jigoro Kano e a preservação da essência do Budô”

Introdução

            Ao longo da história das artes marciais, observa-se um fenômeno recorrente: a fragmentação doutrinária. Diversos sistemas originalmente concebidos por mestres fundadores deram origem a inúmeras escolas, estilos, linhagens e variantes, muitas vezes influenciadas por interesses pessoais, regionais, comerciais ou ideológicos.

            O Karatê dividiu-se em Shotokan, Goju-Ryu, Shito-Ryu, Wado-Ryu e inúmeras derivações

            O Jiu-Jitsu fragmentou-se em diversas escolas e metodologias.

            O Kung Fu chinês possui centenas de estilos. Mesmo modalidades modernas frequentemente se subdividem conforme seus praticantes buscam notoriedade ou diferenciação mercadológica.

            Entretanto, o Judô criado por o Jigoro Kano permanece, em sua essência, uno.

A pergunta que emerge naturalmente é:

            – Por qual motivo o Judô Tradicional Kodokan não se dividiu em dezenas de estilos independentes?

            E mais:

            – Por que não se transformou em uma arte marcial circense destinada ao entretenimento, aos grandes espetáculos e à busca de prêmios financeiros?

            A resposta encontra-se na própria concepção filosófica de seu fundador.

A genialidade estrutural de Jigoro Kano

            – Jigoro Kano não criou apenas um sistema de combate.

            – Criou um método educacional.

            Ao contrário de muitos mestres que desenvolveram técnicas para vencer adversários, Kano desenvolveu um caminho para formar seres humanos.

            O Judô nasceu fundamentado em princípios universais e não em técnicas imutáveis.

            Os dois pilares centrais são:

            Seiryoku Zeny’o:Máxima eficiência com o mínimo esforço.

            Jita Kyoei: Prosperidade e benefícios mútuos.

            Esses princípios são suficientemente amplos para permitir evolução técnica sem necessidade de ruptura doutrinária.

            Assim, o Judô cresce, adapta-se e moderniza-se sem perder sua identidade.

            Enquanto outras artes dependem da autoridade de um mestre específico, o Judô depende da fidelidade aos princípios estabelecidos por Kano.

O sistema Kodokan como elemento de unidade

            Outro fator decisivo foi a criação do Kodokan.

            Desde sua fundação, em 1882, o Kodokan assumiu a função de centro técnico, filosófico e pedagógico do Judô.

            Ele não foi concebido como uma academia particular.

            Foi instituído como referência universal.

            As técnicas foram catalogadas.

            Os Katas foram organizados.

            Os critérios de graduação foram definidos.

            Os fundamentos filosóficos foram registrados.

            Essa estrutura impediu que divergências pessoais gerassem cisões permanentes.

            – A autoridade não estava em indivíduos, mas na doutrina.

O Judô não pertence a um homem

            Em diversas artes marciais, o fundador torna-se objeto de culto.

            Após sua morte, surgem disputas sucessórias.

            Discípulos reivindicam legitimidade exclusiva.

            Novas escolas aparecem.

            No Judô ocorreu algo diferente.

            Jigoro Kano jamais apresentou a si próprio como um guerreiro invencível ou líder messiânico.

            Apresentou-se como educador.

            Seu objetivo era transmitir um método.

            Consequentemente, o foco permaneceu na filosofia e não na personalidade do fundador.

            Essa característica reduziu drasticamente as possibilidades de fragmentação institucional.

            O combate nunca foi a finalidade do Judô

            – O Judô preservou sua unidade porque nunca teve o combate como objetivo final.

            – A luta sempre foi um instrumento pedagógico.

            No pensamento de Kano, vencer um adversário era menos importante do que vencer a si próprio.

            O verdadeiro combate era interno:

•   contra o ego;

•   contra a preguiça;

•   contra a ignorância;

•   contra a impulsividade;

•   contra a falta de disciplina.

            – Quando a vitória deixa de ser o objetivo principal, desaparece a necessidade de criar estilos voltados exclusivamente para derrotar outros praticantes.

A rejeição da mercantilização

            Outro aspecto fundamental é a visão ética do fundador.

            Jigoro Kano acreditava que o Budô deveria servir à formação moral da sociedade.

            Transformar a prática marcial em espetáculo comercial representaria a inversão de seus valores.

            O praticante deixaria de buscar aperfeiçoamento.

            Passaria a buscar audiência.

            O dojo deixaria de ser escola.

            Transformar-se-ia em palco.

            A disciplina seria substituída pelo marketing.

            A técnica pela teatralidade.

            A virtude pela popularidade.

            – Por essa razão, o Judô tradicional sempre manteve profunda reserva em relação à espetacularização da luta.

A questão dos prêmios em dinheiro

            Historicamente, o Judô foi concebido como uma atividade educacional e formativa.

            O espírito original do Kodokan compreende que a recompensa principal do praticante encontra-se em seu desenvolvimento humano.

            Receber dinheiro como consequência profissional de uma carreira esportiva é algo distinto de transformar a competição em atividade movida exclusivamente pelo lucro.

            Quando grandes somas financeiras tornam-se o objetivo principal, surgem inevitavelmente riscos:

•   profissionalização excessiva;

•   perda dos valores educativos;

•   dopagem;

•   manipulação de resultados;

•   abandono dos princípios éticos;

•   busca da vitória a qualquer custo.

            O Judô tradicional sempre procurou preservar a ideia de que o valor do praticante não pode ser medido por recompensas materiais.

            – Sua verdadeira conquista está no aperfeiçoamento contínuo do caráter.

O Judô como caminho e não como espetáculo

            O termo japonês “Do” significa caminho.

            Não significa torneio.

            Não significa espetáculo.

            Não significa negócio.

            Significa jornada.

            – Por isso, o Judô tradicional mantém uma identidade singular entre as artes marciais modernas.

            Sua finalidade transcende a competição.

         O torneio é apenas um momento.

         O treinamento é um meio.

         A graduação é uma referência.

         – Mas o objetivo permanece sendo a formação integral do ser humano.

Conclusão

            O Judô Kodokan não se fragmentou em inúmeros estilos porque Jigoro Kano construiu algo maior do que um método de luta: construiu uma filosofia universal baseada em princípios permanentes.

            Também não se converteu integralmente em espetáculo comercial porque suas raízes encontram-se profundamente ligadas ao Budô, à educação e ao aperfeiçoamento moral.

            Enquanto muitas modalidades passaram a buscar audiência, entretenimento e lucro como finalidade principal, o Judô preservou a compreensão de que a técnica existe para servir ao homem e não o contrário.

            – Essa talvez seja a maior herança de Jigoro Kano.

            Mais importante do que criar campeões foi criar cidadãos.

            Mais importante do que produzir vencedores foi formar seres humanos melhores.

            E enquanto essa essência permanecer viva nos dojos, o Judô continuará sendo aquilo que seu fundador idealizou:

            – não um negócio, não um espetáculo, não uma coleção de estilos rivais, mas um caminho permanente de aperfeiçoamento físico, intelectual, moral e social.

São Paulo, 14 de junho de 2026.

POR: Ricardo Robson da Silva

Advogado – OAB/SP nº 314.238

Major PM Veterano Hachidan (8º Dan) – Liga de Judô Paulista

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