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Eric Hoffer e o fanatismo: quando a certeza ocupa o lugar da verdade
O “filósofo estivador” investigou como a frustração, a necessidade de pertencimento e a entrega a causas absolutas podem alimentar a intolerância. Na era da inteligência artificial, suas perguntas ganham novas implicações para a autonomia intelectual e a responsabilidade de informar.

Uma convicção pode orientar uma vida, sustentar uma luta justa e inspirar realizações coletivas. Mas o que acontece quando ela exige obediência irrestrita? Quando a dúvida se torna traição, os fatos passam a incomodar e o adversário perde o direito de ser reconhecido como pessoa?
Essas perguntas atravessam o pensamento de Eric Hoffer, escritor e filósofo social norte-americano conhecido como o “filósofo estivador”. Autodidata, trabalhou durante quase um quarto de século nas docas de São Francisco, mantendo sua atividade mesmo depois de alcançar reconhecimento intelectual.
Em 1951, publicou The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements, obra divulgada no Brasil como Fanatismo e Movimentos de Massa. O livro investiga o poder de atração das causas coletivas e os mecanismos que podem transformar adesão em submissão. Hoffer morreu em 1983.
Sua reflexão desloca o olhar: para compreender o fanatismo, é preciso examinar tanto as promessas de uma doutrina quanto as necessidades emocionais de quem se entrega a ela.
A busca da certeza e o abandono da dúvida
Uma frase atribuída a Hoffer sintetiza o problema:
“Os fanáticos não estão em busca da verdade, mas da certeza.”
Buscar a verdade exige aceitar a possibilidade do próprio erro, examinar evidências e ouvir objeções. A necessidade de certeza absoluta pode encerrar esse processo antes mesmo de ele começar: a resposta já está definida, e os fatos passam a ser selecionados conforme sua conveniência.
Nesse ambiente, questionar uma liderança torna-se deslealdade; reconhecer o mérito de um adversário, fraqueza; corrigir uma informação falsa, traição à causa.
A convicção deixa de orientar o pensamento e passa a controlar aquilo que a pessoa se permite pensar.
A promessa de escapar de si mesmo
Para Hoffer, a adesão fanática pode oferecer uma saída a quem considera a própria existência frustrada, sem valor ou sem perspectiva. A entrega a uma causa grandiosa permite substituir uma identidade pessoal insatisfatória pela segurança de uma identidade coletiva.
Sua análise também aproxima mecanismos de adesão a extremismos diferentes, examina o papel unificador do ódio e descreve como doutrinas podem proteger seus seguidores de fatos incômodos. São interpretações do autor sobre os movimentos que estuda, não leis universais do comportamento humano.
Essa leitura ajuda a formular uma pergunta sobre organizações que prometem reconhecimento imediato: o lugar oferecido ao indivíduo fortalece sua capacidade de agir ou exige que ele entregue seu julgamento?
Frustração não equivale a fanatismo. Pessoas enfrentam injustiças reais e se organizam legitimamente para transformar suas condições de vida. A participação política, religiosa, sindical ou comunitária pode ampliar a autonomia e a cidadania.
A questão é perceber o que acontece com a responsabilidade individual dentro do grupo. Seus integrantes podem discordar e fiscalizar seus dirigentes? Ou precisam aceitar que a causa justifica qualquer conduta?
Trocar de bandeira sem mudar a maneira de pensar
A hipótese de passagem entre extremismos provoca uma reflexão sobre o significado de mudar de opinião.
Rever uma posição diante de novas evidências é sinal de maturidade intelectual. Entretanto, uma pessoa também pode abandonar uma liderança e passar a venerar outra, preservando a mesma intolerância.
Mudam os símbolos, os discursos e os adversários. Permanece a disposição para obedecer sem questionar e condenar quem diverge.
Isso não torna todas as ideologias equivalentes. Seus objetivos, métodos, responsabilidades históricas e consequências precisam ser examinados em cada contexto. Reconhecer semelhanças na maneira de aderir a uma causa não elimina as diferenças entre projetos políticos ou crenças religiosas.
Uma revisão profunda envolve também a forma de pensar: a capacidade de conviver com perguntas, reconhecer limites e abandonar a necessidade de infalibilidade.
O inimigo como elemento de união
O papel atribuído por Hoffer ao ódio permite outra pergunta ao debate público: o que mantém determinada comunidade unida — aquilo que pretende construir ou aqueles que deseja destruir?
Denunciar injustiças, combater crimes e responsabilizar seus autores são ações necessárias. O perigo surge quando a acusação dispensa provas, a culpa se torna coletiva e qualquer discordância passa a confirmar uma suposta conspiração.
Nesse cenário, a humilhação pode ser apresentada como coragem e a crueldade como fidelidade. Pessoas que condenariam uma agressão em outras circunstâncias passam a justificá-la quando praticada em nome de sua causa.
O pertencimento oferece uma autorização moral para comportamentos que deveriam continuar sujeitos ao julgamento da consciência e da lei.
Uma causa merece ser avaliada também pelos limites que seus defensores aceitam respeitar. Como tratam uma denúncia contra os próprios dirigentes? Que espaço concedem ao dissenso? O que se recusam a fazer, mesmo para vencer?
Quando os fatos ameaçam a identidade
Admitir um fato pode exigir a revisão da imagem de um líder, de um movimento ou de nós mesmos. É nesse ponto que a discussão se torna especialmente difícil.
Se a pessoa vinculou toda a sua identidade a uma causa, reconhecer um erro pode ameaçar seu sentimento de pertencimento. Ela teme perder amizades, reconhecimento e propósito. Defender uma informação falsa pode parecer emocionalmente mais confortável do que enfrentar a revisão de suas certezas.
Por isso, a qualidade do debate depende também de ambientes nos quais corrigir um erro seja possível sem humilhação. A disposição para ouvir pode abrir espaço à reflexão; o constrangimento público pode reforçar a necessidade de defesa.
Isso não elimina a responsabilidade de quem mente ou manipula. Significa compreender que informar e persuadir exigem mais do que vencer uma discussão.
Uma reflexão para o ambiente digital
Hoffer escreveu antes das redes sociais. Ainda assim, suas perguntas permitem uma leitura do presente.
Uma comunidade digital merece atenção quando transforma toda pergunta em ofensa, verifica apenas as informações dos adversários e aceita sem exame aquilo que favorece suas preferências.
O teste vale para cada um de nós: conseguimos reconhecer um erro cometido por alguém que admiramos? Aceitamos uma informação consistente quando ela contraria nossa posição? Aplicamos aos aliados os mesmos critérios que exigimos dos oponentes?
Essas perguntas são mais úteis do que distribuir o rótulo de fanático. Elas permitem examinar comportamentos concretos e reconhecer que ninguém está dispensado da autocrítica.
Inteligência artificial: quando parecer verdadeiro já pode convencer
A inteligência artificial generativa acrescenta outra dimensão ao problema. Textos, imagens, áudios e vídeos podem ser produzidos ou alterados para apresentar como verdadeiro algo que nunca aconteceu. A UNESCO identifica entre os riscos dessa tecnologia a desinformação, a falta de confiabilidade das fontes e as ameaças à integridade das eleições.
A conexão com Hoffer está na maneira como recebemos esses conteúdos. Uma fabricação pode encontrar terreno favorável quando confirma uma certeza que seu destinatário deseja preservar. A aparência de prova oferece uma justificativa para continuar acreditando.
Antes de compartilhar uma denúncia contra alguém de quem discordamos, fazemos a mesma verificação que exigiríamos se a acusação atingisse uma pessoa que admiramos?
Também existe o risco inverso: a possibilidade de falsificação pode servir de desculpa para rejeitar registros autênticos. A suspeita indiscriminada compromete a avaliação dos fatos tanto quanto a confiança sem exame.
Nesse contexto, educação e jornalismo têm uma responsabilidade concreta: mostrar de onde vem uma informação, distinguir evidência de interpretação e corrigir erros com transparência. A UNESCO defende a educação midiática e informacional como instrumento para desenvolver uma relação crítica com os conteúdos e as tecnologias digitais.
Para o leitor, essa responsabilidade começa com uma pausa entre receber e compartilhar. Quem publicou? Qual é a fonte original? Há confirmação independente? A imagem ou a declaração está no contexto correto?
Quanto mais uma mensagem nos satisfaz por confirmar nossas preferências, maior deve ser o cuidado de verificar sua procedência.
Convicção com responsabilidade
The True Believer é um ensaio interpretativo, não um diagnóstico clínico nem uma explicação suficiente para todos os conflitos sociais. Suas generalizações precisam ser confrontadas com a história e com as particularidades de cada movimento.
Utilizar Hoffer apenas para desqualificar adversários seria perder a oportunidade de examinar a própria relação com o poder, o pertencimento e a dúvida.
Uma sociedade democrática precisa de convicções capazes de conviver com perguntas, de lideranças sujeitas à fiscalização e de cidadãos que respondam por seus atos, mesmo quando agem em grupo.
Defender uma causa com firmeza é compatível com reconhecer limites, corrigir erros e respeitar a dignidade de quem discorda. A maturidade de uma convicção aparece justamente quando ela suporta o exame da realidade.
A pergunta que permanece é pessoal e exigente: estamos dispostos a buscar a verdade, inclusive quando ela contraria aquilo em que desejamos acreditar?
Referências
- HOFFER, Eric. The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements. Nova York: Harper & Brothers, 1951. Especialmente as seções 62 e 63, sobre fanatismo e passagem entre causas.
- Hoover Institution. Eric Hoffer, Genius—And Enigma.
- Hoover Institution. The Longshoreman Philosopher.
- UNESCO IITE. Media and Information Literacy Responses to Generative AI.
- UNESCO. Media and Information Literacy.
Nota editorial: a frase “Os fanáticos não estão em busca da verdade, mas da certeza” é apresentada como atribuída a Eric Hoffer. Sua redação literal não foi confirmada nas fontes consultadas. As considerações sobre redes sociais e inteligência artificial são aplicações contemporâneas desenvolvidas neste artigo.