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Dia da Pessoa Idosa · Editorial

Envelhecer com dignidade é continuar tendo voz, escolhas e futuro

Dia da Pessoa Idosa: viver mais, viver bem, viver com dignidade. Dois adultos idosos sorridentes na arte do RCP News.
Voz, escolhas e futuro em todas as fases da vida. Ilustração produzida com inteligência artificial para o RCP News.

Neste Dia da Pessoa Idosa, o Brasil precisa transformar homenagens em oportunidades, cuidado e condições reais para o bem viver.

Uma sociedade revela seus valores na maneira como trata as pessoas ao longo de toda a vida. Neste 1º de outubro, Dia Nacional do Idoso e Dia Internacional das Pessoas Idosas, precisamos olhar para o envelhecimento com respeito, responsabilidade e disposição para agir. A data reconhecida no Brasil e pelas Nações Unidas nos convida a discutir o lugar da pessoa idosa no presente e nas decisões sobre o futuro. A data na legislação brasileira e nas Nações Unidas.

Nossa posição é clara: envelhecer deve preservar o direito de aprender, trabalhar, descansar, conviver, amar, participar e decidir. A dignidade não depende da produtividade, da renda ou da capacidade de realizar tudo sem ajuda. Ela pertence também a quem adoeceu, perdeu mobilidade ou precisa de cuidados permanentes.

O Brasil já vive uma transformação demográfica que exige respostas em todas as áreas. Segundo o IBGE, a população com 60 anos ou mais passou de 22 milhões, em 2012, para 34,1 milhões, em 2024 — crescimento de 53,3%. São dados de 2024, divulgados em 2025, que dimensionam uma realidade com consequências para o trabalho, a saúde, a educação, a moradia e a organização das famílias. Consulte a divulgação do IBGE.

Precisamos planejar o país considerando essa população em sua diversidade. Há pessoas idosas que empreendem, ensinam, praticam esportes e lideram projetos. Há outras que enfrentam pobreza, isolamento ou dependência. Políticas responsáveis precisam alcançar todas elas.

Na economia e no trabalho, experiência merece oportunidade

O IBGE aponta que 24,4% das pessoas com 60 anos ou mais estavam ocupadas em 2024. Essa presença deve estimular empresas e instituições a rever critérios de contratação, oferecer atualização profissional e valorizar equipes de diferentes gerações. Leia os dados na Agência Gov.

A experiência pode contribuir para decisões, formação de profissionais e continuidade de conhecimentos. Mas permanecer trabalhando precisa ser uma possibilidade acompanhada de condições dignas. Não podemos celebrar a longevidade enquanto ignoramos quem trabalha por necessidade, sem proteção ou perspectiva de descanso.

A aposentadoria também deve permitir escolhas. Empreender, desenvolver um projeto, dedicar-se à família ou simplesmente desfrutar o tempo são caminhos legítimos. O valor de uma pessoa não termina quando se encerra seu vínculo profissional.

Na educação e na tecnologia, aprender continua sendo um direito

Universidades, escolas, bibliotecas e centros culturais devem ampliar oportunidades de aprendizagem ao longo da vida. Pessoas idosas precisam encontrar espaço tanto para compartilhar conhecimentos quanto para adquirir outros.

Essa responsabilidade ganha força diante da digitalização de bancos, serviços públicos, consultas e relações sociais. Aplicativos acessíveis, linguagem compreensível e atendimento humano devem fazer parte da inovação. Quando um serviço exige habilidades digitais sem oferecer apoio, transfere ao cidadão uma dificuldade que a instituição deveria ajudar a resolver.

A inteligência artificial também precisa ser discutida nesse contexto: como ferramenta que pode facilitar tarefas, mas cujo uso exige informação, proteção de dados e alternativas para quem encontra barreiras. Modernizar deve ampliar o acesso.

Na saúde, o objetivo é viver melhor ao longo dos anos

A Organização Mundial da Saúde relaciona o envelhecimento saudável à manutenção das capacidades que permitem bem-estar, aprendizagem, decisões, mobilidade, vínculos e participação social. Também esclarece que ter uma doença não impede, necessariamente, envelhecer com qualidade de vida. Entenda o conceito na OMS.

Isso exige cuidado integral, atento à saúde física e emocional, às condições de moradia e à vida cotidiana. Precisamos de serviços que escutem a pessoa, coordenem o atendimento e apoiem familiares e cuidadores.

No esporte e nas artes marciais, cabe criar oportunidades adequadas às condições de cada praticante, com orientação responsável e respeito aos limites individuais. O dojô, a academia, a praça e os espaços de convivência podem acolher diferentes gerações. A disciplina deve favorecer a continuidade da prática e o respeito ao próprio corpo.

Bem viver também inclui descanso, alimentação, lazer, cultura e relações afetivas. E depende de condições concretas: renda, transporte, segurança e acesso ao cuidado. Não se pode transformar o envelhecimento em uma cobrança individual por desempenho.

Na família e na comunidade, respeito começa pela escuta

Cuidar exige reconhecer desejos, histórias e preferências. Falar diretamente com a pessoa idosa, incluí-la nas conversas e respeitar suas decisões são atitudes fundamentais.

Precisamos abrir espaço para amizades, afetividade, espiritualidade e participação comunitária, conforme a vontade de cada pessoa. Associações, instituições religiosas, organizações maçônicas e entidades do terceiro setor podem promover convivência e solidariedade entre gerações, com participação efetiva das pessoas idosas na construção das atividades.

Quem necessita de ajuda deve receber cuidado que preserve, tanto quanto possível, sua autonomia. E quem cuida também precisa de apoio, orientação e condições para exercer essa responsabilidade.

Na proteção dos direitos, o compromisso precisa chegar à vida cotidiana

A violência pode aparecer na humilhação, na negligência e no abandono, mas também no controle indevido do dinheiro e do patrimônio. Em orientação publicada em setembro de 2026, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania destacou situações como retenção de cartões e documentos, pressão por empréstimos e coerção envolvendo heranças. Denúncias de violações contra pessoas idosas podem ser encaminhadas ao Disque 100, disponível todos os dias, durante 24 horas. Orientações sobre violência patrimonial e canais de denúncia.

Bancos, serviços públicos e redes de proteção precisam atuar com atenção a essas situações. A mediação pode ajudar a construir diálogo em conflitos familiares, desde que preserve a vontade da pessoa e jamais sirva para encobrir violência ou substituir a proteção necessária.

Na cidade e no mercado imobiliário, o envelhecimento deve orientar projetos: calçadas transitáveis, transporte acessível, iluminação, moradias seguras e serviços próximos. Uma pessoa pode desejar sair, conviver e participar, mas encontrar barreiras já na porta de casa. Acessibilidade é condição de cidadania.

Na política, pessoas idosas devem participar da formulação e da fiscalização das ações que afetam suas vidas. Na comunicação, precisamos ouvi-las como fontes, especialistas, lideranças e cidadãs, reconhecendo a pluralidade de suas experiências.

A Década do Envelhecimento Saudável, de 2021 a 2030, coordenada pela OMS, reúne compromissos com o combate à discriminação por idade, ambientes favoráveis, cuidado integrado e assistência de longo prazo. Essa agenda precisa ganhar expressão nos municípios, nas instituições e nas escolhas diárias. Conheça a agenda da OMS.

Neste 1º de outubro, a homenagem mais consequente é assumir responsabilidades: oferecer oportunidades, garantir proteção, melhorar o cuidado e compartilhar decisões.

Ensinar é deixar legado. Honrar esse legado exige reconhecer que quem envelhece continua tendo desejos, conhecimentos e caminhos a construir.

Viver mais é uma conquista. Viver com dignidade, pertencimento e liberdade deve ser um compromisso de todos nós.

Professor Roque Cortes Pereira
RCP News — Jornalismo de profundidade. Inteligência que gera transformação.

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