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Eleições afetam o mercado imobiliário?

Em ano eleitoral, decisões podem ser adiadas. Mas a demanda por moradia, investimento e locação não desaparece. O que muda para clientes e profissionais?
Estamos a poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de outubro. E, como acontece a cada ciclo eleitoral, uma frase volta a circular pelos salões de vendas:
“O mercado está parado por causa das eleições.”
Será mesmo?
Eleição pode, sim, afetar o mercado imobiliário. Mas é importante entender como esse impacto acontece — e não transformar o calendário eleitoral em justificativa para tudo.
O imóvel é um ativo de longo prazo. Quem compra uma casa, investe em um apartamento ou adquire um imóvel para renda não está tomando uma decisão para quatro anos. Muitas vezes está tomando uma decisão para 10, 20 ou 30 anos.
O que uma eleição provoca, principalmente, é incerteza.
Compradores, investidores, incorporadores e empresários passam a observar com mais atenção questões como política econômica, inflação, juros, crédito, emprego, tributação e confiança.
E existe uma regra bastante conhecida no mercado: diante de maior incerteza, algumas pessoas adiam decisões.
Mas adiar não significa desistir.
Aliás, os números de 2026 ajudam a colocar essa discussão em perspectiva. Segundo a CBIC, foram comercializadas 226.536 unidades residenciais novas no Brasil no primeiro semestre, crescimento de 5,4% em relação ao mesmo período de 2025. Ou seja: mesmo em ano eleitoral e com condições desafiadoras de crédito, o mercado continuou negociando.
Os indicadores ABRAINC-Fipe também mostraram vendas de imóveis novos crescendo 11,4% nos quatro primeiros meses de 2026, apesar do ambiente de crédito restritivo.
Isso derruba uma ideia perigosa: a de que eleição simplesmente “para” o mercado imobiliário.
Não para.
O que pode mudar é o comportamento do cliente.
Em determinados segmentos, ele pode ficar mais cauteloso. Pode pesquisar mais, negociar mais, comparar alternativas e esperar maior clareza antes de assinar.
E justamente aí aumenta a responsabilidade do profissional imobiliário.
Em momentos de incerteza, o cliente precisa menos de pressão e mais de informação.
O bom corretor precisa conhecer financiamento, documentação, região, preço por metro quadrado, liquidez, histórico de valorização, potencial de renda e alternativas para estruturar o negócio.
Precisa separar fato de boato.
Não interessa ao profissional tentar prever quem ganhará uma eleição. Interessa entender aquilo que realmente interfere na capacidade de compra e na decisão do cliente.
Também não podemos esquecer de uma coisa básica: a vida não entra em período eleitoral.
Pessoas continuam casando.
Famílias continuam crescendo.
Casais continuam se separando.
Filhos saem de casa.
Empresas mudam de endereço.
Investidores continuam procurando oportunidades.
Proprietários precisam vender.
Inquilinos precisam alugar.
Heranças são partilhadas.
E milhares de brasileiros continuam sonhando com a casa própria.
Essa demanda não desaparece porque existe uma urna no calendário.
O primeiro turno das eleições gerais de 2026 acontece em 4 de outubro e eventual segundo turno, para as disputas majoritárias previstas, será em 25 de outubro. Fonte: Justiça Eleitoral.
Depois disso, continuaremos discutindo juros, crédito, emprego, inflação, oferta, demanda e confiança — exatamente os fatores que já influenciam o mercado hoje.
Por isso, quando ouço alguém dizer:
“Não estou vendendo por causa das eleições”, minha primeira pergunta é outra:
Quantos clientes você atendeu esta semana?
Quantos follow-ups realizou?
Quantos proprietários visitou?
Quantas captações fez?
Quantas placas colocou?
Quantas oportunidades apresentou?
Quantos clientes antigos voltou a procurar?
É muito fácil colocar a culpa na eleição, nos juros, no governo, no banco, no portal, no concorrente ou no mercado.
Difícil é olhar para a própria produtividade.
Em mais de quatro décadas acompanhando o mercado imobiliário, já atravessei diferentes governos, moedas, planos econômicos, crises, juros altos, juros baixos, pandemias e inúmeras eleições.
E uma coisa continua igual:
imóveis continuam sendo vendidos todos os dias.
Eleições podem mudar expectativas.
Podem aumentar a cautela.
Podem alterar o ambiente econômico futuro.
Mas não suspendem a necessidade das pessoas de morar, investir, vender ou alugar.
Por isso, ao profissional imobiliário, deixo uma recomendação simples:
não tente adivinhar a eleição. Entenda o mercado.
Enquanto alguns ficam esperando o cenário perfeito, outros continuam trabalhando.
Porque no mercado imobiliário, cenário perfeito é raro.
Oportunidade, não.
Luiz Kechichian
CEO da Mirantte
Mercado imobiliário desde 1985
As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade do autor.