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Editorial – O Brasil precisa discutir produtividade antes de discutir apenas quantas horas trabalhamos
O Brasil precisa discutir produtividade antes de discutir apenas quantas horas trabalhamos
A jornada de trabalho é importante. Mas o verdadeiro debate nacional é transformar tempo em valor.
O avanço da proposta que encerra a escala 6×1 colocou o Brasil diante de uma discussão necessária. A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou a PEC 221/2019, que prevê dois dias de repouso semanal remunerado, redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais e manutenção dos salários. O texto segue agora para o Plenário do Senado, onde precisa de aprovação em dois turnos. (Agência Brasil)
A pauta mobiliza trabalhadores, empresas, sindicatos, partidos, especialistas e setores inteiros da economia. É natural que provoque entusiasmo, resistência, esperança e preocupação.
Mas o Brasil precisa tomar cuidado para não reduzir uma questão estrutural a uma disputa de slogans.
Não basta perguntar quantas horas o brasileiro trabalha.
É preciso perguntar quanto valor o Brasil consegue produzir durante essas horas.
Essa é a palavra que deveria estar no centro do debate: produtividade.
Jornada é direito. Produtividade é projeto nacional.
A defesa de mais tempo para descanso, família, saúde mental, estudo e vida social é legítima. Um país civilizado não pode tratar o trabalhador apenas como peça de funcionamento econômico. Trabalho deve gerar renda, dignidade e desenvolvimento — não esgotamento permanente.
Ao mesmo tempo, empresas, especialmente micro, pequenas e médias, têm razão ao pedir clareza sobre custos, adaptação, contratação, escalas, setores contínuos e competitividade. Comércio, saúde, segurança privada, serviços, hotelaria, alimentação, transporte e atividades que funcionam todos os dias terão desafios reais de reorganização. Reportagens desta semana apontam que setores como serviços e varejo concentram milhões de trabalhadores em jornadas entre 40 e 44 horas semanais, o que mostra a dimensão prática da mudança. (Folha de S.Paulo)
Portanto, a discussão não pode ser rasa.
O erro seria transformar o trabalhador em inimigo da empresa.
O outro erro seria transformar a empresa em inimiga do trabalhador.
Uma sociedade madura precisa reconhecer que qualidade de vida e sustentabilidade econômica precisam caminhar juntas.
A pergunta correta não é apenas: “devemos trabalhar menos?”
A pergunta mais completa é:
Como o Brasil pode trabalhar melhor, produzir mais valor, pagar melhores salários e preservar mais qualidade de vida?
O problema brasileiro não é apenas a jornada
O Brasil tem um problema antigo de produtividade.
Segundo levantamento do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV IBRE, indicadores de produtividade recuaram no primeiro trimestre de 2026 e operavam abaixo do nível pré-pandemia; a produtividade total dos fatores por hora efetivamente trabalhada caiu 0,6% na comparação com o último trimestre de 2025, e houve queda interanual de 1,5% considerando horas efetivamente trabalhadas. (Portal FGV)
Outro estudo da FGV IBRE mostra que, entre 1996 e 2025, o crescimento da economia brasileira foi sustentado mais pela ampliação das horas trabalhadas do que pela produtividade: o aumento das horas respondeu por 62% do crescimento, enquanto a produtividade do trabalho contribuiu com 39%. (Portal IBRE)
Esse dado é decisivo.
Ele revela que o Brasil cresceu, muitas vezes, colocando mais gente e mais horas no processo produtivo, mas não necessariamente produzindo muito mais valor por hora trabalhada.
Isso limita salários.
Limita competitividade.
Limita arrecadação.
Limita crescimento sustentável.
Limita a capacidade de reduzir jornada sem gerar pressão sobre custos em determinados setores.
É por isso que discutir produtividade não é tecnicismo econômico. É discutir o futuro social do país.
Trabalhar muito não significa produzir bem
Há países que trabalham menos horas e produzem muito mais valor por trabalhador. Isso ocorre porque combinam educação de qualidade, tecnologia, infraestrutura, gestão eficiente, ambiente de negócios, inovação, segurança jurídica e capital humano qualificado.
O Brasil, por outro lado, frequentemente exige muito esforço para entregar resultado modesto.
O trabalhador enfrenta transporte ruim, serviços públicos instáveis, baixa qualificação continuada, empresas pouco digitalizadas, excesso de burocracia, processos mal organizados, crédito caro, informalidade, insegurança, infraestrutura insuficiente e ambientes de trabalho que nem sempre valorizam gestão, treinamento e tecnologia.
Nesse contexto, o problema não é apenas a duração da jornada.
É a qualidade do sistema produtivo.
Trabalhar mais horas em um sistema desorganizado não resolve a baixa produtividade.
Trabalhar menos horas sem reorganizar processos também pode gerar dificuldade.
A resposta está em elevar a inteligência do trabalho.
Produtividade nasce da educação
Nenhum país se torna produtivo sem educação.
A produtividade começa antes da fábrica, do escritório, da loja, do hospital ou da empresa de tecnologia. Começa na alfabetização, na matemática, na leitura, na interpretação, na disciplina intelectual, na formação técnica, no ensino superior, na pesquisa aplicada e na capacidade permanente de aprender.
Um trabalhador com boa formação aprende mais rápido, erra menos, resolve melhor problemas, adapta-se a novas tecnologias, comunica-se melhor, compreende processos e contribui para inovação.
Uma empresa com equipe qualificada consegue reorganizar métodos, automatizar tarefas, melhorar atendimento, reduzir desperdício e criar valor.
Uma escola fraca cobra a conta anos depois no mercado de trabalho.
Por isso, o debate da jornada deveria obrigar o Brasil a fazer uma pergunta incômoda:
estamos preparando trabalhadores para uma economia de maior valor agregado ou apenas discutindo como distribuir melhor uma produtividade baixa?
A escola não pode terceirizar o pensamento para a inteligência artificial.
E o país não pode terceirizar sua produtividade para discursos.
Produtividade nasce da gestão
Muitas empresas brasileiras não perdem produtividade apenas por falta de tecnologia. Perdem por falta de gestão.
Processos confusos, retrabalho, reuniões improdutivas, metas mal definidas, ausência de indicadores, liderança despreparada, comunicação interna frágil, baixa capacitação, desperdício de material e cultura de improviso reduzem o valor produzido por hora.
Antes de discutir apenas a escala, cada organização deveria perguntar:
O que minha equipe faz hoje que não gera valor?
Quais tarefas poderiam ser automatizadas?
Quais processos geram retrabalho?
Quais indicadores realmente medem resultado?
Que treinamento aumentaria eficiência?
Que tecnologia reduziria desperdício?
Que liderança melhoraria desempenho sem aumentar desgaste?
A redução da jornada pode ser uma oportunidade para empresas reverem profundamente sua organização do trabalho.
Mas isso exige liderança.
Não basta trocar a escala.
É preciso mudar o método.
Produtividade nasce da tecnologia bem aplicada
A inteligência artificial, a automação, os sistemas de gestão, a análise de dados e as plataformas digitais podem ampliar produtividade.
Mas tecnologia, sozinha, não é inovação.
Comprar software não transforma automaticamente uma empresa.
Contratar inteligência artificial não cria, por si só, vantagem competitiva.
Digitalizar uma operação desorganizada pode apenas acelerar a desordem.
A tecnologia precisa resolver problemas concretos: reduzir tempo, cortar desperdício, melhorar decisão, ampliar qualidade, personalizar atendimento, evitar erro, prever demanda, organizar estoque, otimizar logística e aumentar a capacidade humana de produzir valor.
O Brasil precisa parar de confundir modernização com aparência tecnológica.
Produtividade não nasce da ferramenta.
Nasce do uso inteligente da ferramenta.
A pequena empresa precisa de atenção especial
O debate da jornada toca de maneira muito diferente uma grande companhia e um pequeno negócio.
Grandes empresas têm departamentos jurídicos, recursos humanos, tecnologia, escala, capital e capacidade de reorganização. Pequenas empresas vivem margens apertadas, dependem diretamente da presença do dono, enfrentam custo de crédito elevado e têm menor capacidade de contratar rapidamente.
Não por acaso, tramita no Senado proposta complementar para criar medidas temporárias de adaptação para MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte diante da redução da jornada e ampliação do repouso semanal. (Senado Federal)
Esse ponto é essencial.
Uma reforma trabalhista com objetivo social legítimo precisa prever transição, orientação, apoio técnico e tratamento diferenciado para realidades diferentes.
O Brasil não pode discutir jornada como se todas as empresas fossem iguais.
Não são.
O falso conflito entre trabalhador e produtividade
Produtividade não deveria ser palavra contra o trabalhador.
Ao contrário.
A produtividade é uma das principais condições para que o trabalhador ganhe melhor, trabalhe em ambiente mais organizado e tenha mais qualidade de vida.
Quando uma economia é pouco produtiva, o trabalhador paga parte da conta com salários menores, jornadas mais longas, menor mobilidade, menor qualificação e menos oportunidades.
Quando uma economia se torna mais produtiva, abre-se espaço para salários maiores, jornadas mais racionais, empresas mais competitivas e serviços melhores.
A questão é garantir que os ganhos de produtividade sejam compartilhados de forma justa.
Produtividade sem distribuição pode concentrar riqueza.
Distribuição sem produtividade pode ser insustentável.
O desafio nacional é combinar as duas coisas.
O debate precisa de números, não apenas emoções
A pauta da escala 6×1 toca a vida real de milhões de famílias. É compreensível que desperte emoção.
Mas política pública exige números.
Quantos trabalhadores serão impactados por setor?
Qual será o custo médio de adaptação?
Quantas contratações adicionais serão necessárias?
Quais atividades poderão reorganizar turnos?
Quais setores terão maior dificuldade?
Como será a transição?
Como evitar informalidade?
Como proteger pequenas empresas?
Como medir impactos sobre produtividade, preços, emprego e saúde?
Como fiscalizar o cumprimento?
Como impedir que o trabalhador perca renda indireta?
Como estimular empresas a investir em tecnologia e treinamento?
Essas perguntas precisam entrar no centro da cobertura jornalística.
O jornalismo não deve apenas amplificar posições.
Deve organizar o debate público.
Uma oportunidade histórica
A PEC da jornada pode se transformar em disputa eleitoral de curto prazo.
Mas também pode se tornar uma oportunidade histórica.
O Brasil pode aproveitar esse momento para discutir uma agenda nacional de produtividade.
Uma agenda que envolva educação básica, ensino técnico, inovação, inteligência artificial, simplificação tributária, infraestrutura, crédito, gestão, digitalização, segurança jurídica, formação de lideranças e modernização das relações de trabalho.
A discussão sobre horas trabalhadas deve abrir uma porta para algo maior:
o Brasil precisa decidir se continuará competindo pelo esforço ou se passará a competir pelo conhecimento.
Competir pelo esforço significa depender de muitas horas, baixos salários, improviso e desgaste.
Competir pelo conhecimento significa produzir mais valor com melhor formação, melhores processos, melhor tecnologia e melhor gestão.
O futuro está na segunda opção.
“O que o Brasil precisa mudar para trabalhar melhor, produzir mais valor e viver com mais dignidade?”Essa é a pergunta que eleva o debate.
Conclusão
O Brasil precisa discutir jornada.
Mas precisa discutir produtividade com a mesma coragem.
Reduzir horas pode representar avanço social relevante, especialmente para quem vive rotina exaustiva e tem pouco tempo para família, estudo, saúde e convivência.
Mas a sustentabilidade dessa mudança dependerá da capacidade do país de reorganizar trabalho, elevar qualificação, aplicar tecnologia, melhorar gestão e aumentar o valor produzido por hora.
Não basta trabalhar muito.
É preciso trabalhar melhor.
Não basta reduzir tempo.
É preciso aumentar valor.
Não basta defender direitos.
É preciso construir condições para que esses direitos sejam sustentáveis.
A verdadeira modernização do trabalho brasileiro não será medida apenas pelo número de horas na Constituição.
Será medida pela capacidade de transformar tempo em produtividade, produtividade em renda, renda em dignidade e dignidade em desenvolvimento humano.
“Trabalhar mais horas não torna uma sociedade necessariamente mais produtiva. Conhecimento, organização, tecnologia e disciplina transformam tempo em valor.”
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Professor Roque Cortes Pereira
Educador, jornalista, escritor e mestre em formação humana
Disciplina é Liberdade.