Educação · Colunista
A ciência brasileira de impacto mundial: a liderança paulista e os desafios para ampliar a excelência científica nacional
O levantamento Stanford/Elsevier de 2026 evidencia a importância das universidades públicas brasileiras, especialmente das instituições paulistas, e reforça a necessidade de políticas de Estado para a pesquisa científica.

1. Introdução
A divulgação, pelo Jornal da USP, dos resultados da edição de 2026 do levantamento internacional de pesquisadores de maior impacto científico constitui uma oportunidade para refletir sobre o desenvolvimento da ciência brasileira.
O estudo, elaborado a partir de indicadores bibliométricos da base Scopus, identifica pesquisadores com destaque internacional segundo critérios padronizados de citações científicas.
Na avaliação referente às citações recebidas em 2025, o Brasil alcançou 1.510 pesquisadores, dos quais 284 estão vinculados à Universidade de São Paulo (USP).
Esses números representam um reconhecimento relevante da produção científica nacional e demonstram a capacidade das instituições brasileiras de produzir conhecimento com repercussão internacional.
Entretanto, mais importante do que comemorar posições em classificações internacionais é compreender quais condições institucionais, financeiras e humanas permitem alcançar e sustentar esses resultados.
2. A liderança das universidades paulistas
O levantamento destaca a participação expressiva das três universidades estaduais paulistas:
| Universidade | Pesquisadores |
|---|---|
| USP | 284 |
| Unicamp | 105 |
| Unesp | 87 |
| Total | 476 |
Juntas, essas instituições representam aproximadamente 31,5% dos 1.510 pesquisadores brasileiros incluídos na avaliação anual.
Essa concentração não é casual. São universidades com programas consolidados de pós-graduação, tradição em pesquisa, infraestrutura laboratorial, cooperação internacional e mecanismos institucionais de apoio à produção científica.
O Estado de São Paulo também dispõe de um importante diferencial: a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), cujo financiamento regular e previsível constitui um componente estratégico do sistema paulista de ciência, tecnologia e inovação.
É importante, contudo, evitar interpretações simplificadoras. O desempenho das universidades resulta de investimentos acumulados durante décadas, envolvendo recursos estaduais e federais, formação de pesquisadores, políticas institucionais e redes nacionais e internacionais de colaboração.
3. A evolução da presença brasileira
Segundo os dados agregados da edição de 2026, o número de pesquisadores brasileiros na lista anual passou de 1.461 para 1.510, representando crescimento aproximado de 3,4%.
Na avaliação do impacto acumulado ao longo da carreira, o Brasil alcançou 1.304 pesquisadores em 2026. Uma série histórica secundária indica que eram aproximadamente 600 em 2020.
Esses resultados sugerem uma ampliação da presença brasileira na base internacional de pesquisadores de elevado impacto bibliométrico.
Todavia, a comparação entre edições exige cautela: alterações na cobertura da Scopus, nas afiliações institucionais, nos perfis dos autores e na composição das áreas podem influenciar os resultados.
Portanto, o crescimento do número de pesquisadores classificados não deve ser interpretado automaticamente como crescimento proporcional da qualidade ou da produtividade científica nacional.
4. O papel das universidades públicas e privadas
Um aspecto que merece investigação aprofundada é a distribuição dos pesquisadores classificados segundo a natureza jurídica das instituições às quais estão vinculados.
O levantamento evidencia uma presença importante das universidades públicas federais e estaduais, mas não permite, apenas com os totais divulgados, determinar a participação nacional exata dos setores público e privado.
Para essa análise, o IVEPESP propõe identificar e classificar as instituições dos 1.510 pesquisadores, considerando universidades públicas, instituições privadas, institutos públicos de pesquisa, hospitais e outras organizações.
Também será necessário tratar adequadamente pesquisadores com múltiplas afiliações e instituições com diferentes formas de organização jurídica.
Essa investigação poderá revelar não apenas onde se concentra a produção científica de maior repercussão internacional, mas também quais modelos institucionais apresentam resultados relevantes em diferentes áreas do conhecimento.
5. O que os indicadores bibliométricos realmente medem?
O levantamento Stanford/Elsevier utiliza um indicador composto conhecido como c-score, que combina diferentes medidas de citações e considera características da autoria científica.
A metodologia busca oferecer uma avaliação mais abrangente do impacto bibliométrico do que a simples contagem de publicações ou o índice h isoladamente.
Entretanto, o impacto medido por citações não representa integralmente a contribuição de um pesquisador à sociedade.
Um professor universitário pode exercer influência extraordinária na formação de profissionais, na criação de laboratórios, no desenvolvimento de tecnologias, na formulação de políticas públicas ou na melhoria da educação sem necessariamente figurar entre os pesquisadores mais citados.
Há ainda limitações associadas à cobertura das bases de dados. Estudo publicado em 2026 na revista Scientometrics identificou diferenças importantes na indexação de publicações científicas, particularmente em áreas com maior presença de livros e em determinados padrões editoriais.
Por isso, o IVEPESP defende que indicadores bibliométricos sejam utilizados como instrumentos complementares de avaliação, e não como critérios exclusivos para financiamento, progressão acadêmica ou reconhecimento institucional.
6. A importância da diversidade das áreas científicas
Na USP, a Medicina Clínica reúne 129 pesquisadores na lista anual, correspondendo a aproximadamente 45,4% dos 284 classificados.
Outras áreas de destaque são Biologia, Química, Agricultura, Pesca e Florestas e Pesquisa Biomédica.
Na avaliação acumulada ao longo da carreira, a área de Energia apresenta presença expressiva, com 19 pesquisadores da USP.
Esses dados mostram que a excelência científica se manifesta de maneira diferente entre as disciplinas.
Na Física, Matemática, Engenharia, Medicina, Ciências Humanas e demais áreas, os padrões de publicação e citação podem variar significativamente.
Uma política científica adequada deve reconhecer essas diferenças, evitando aplicar indiscriminadamente os mesmos parâmetros de avaliação a todos os campos do conhecimento.
7. Financiamento científico: continuidade e previsibilidade
A liderança científica brasileira depende de um sistema de financiamento capaz de assegurar a continuidade das pesquisas.
Nesse contexto, destacam-se a FAPESP, o CNPq, a CAPES, a Finep, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e os recursos destinados às universidades e aos institutos de pesquisa.
O IVEPESP considera que três dimensões precisam ser analisadas conjuntamente: financiamento de projetos, formação de pesquisadores e manutenção da infraestrutura científica.
Não basta financiar novos equipamentos e laboratórios sem garantir recursos para sua operação, atualização tecnológica e segurança.
Da mesma forma, a concessão de bolsas deve estar acompanhada de condições institucionais para que os jovens pesquisadores desenvolvam suas carreiras no Brasil.
O crescimento da presença brasileira nas classificações internacionais deve, portanto, estimular uma discussão sobre a sustentabilidade do financiamento científico e não apenas sobre a quantidade de publicações produzidas.
8. Internacionalização e formação de novas gerações
A cooperação internacional é componente essencial da ciência contemporânea.
A participação de pesquisadores brasileiros em redes internacionais permite acesso a instalações científicas avançadas, intercâmbio de conhecimentos e desenvolvimento de projetos de maior complexidade.
Programas de mobilidade, como o estágio de pesquisa no exterior apoiado pela FAPESP, e iniciativas de cooperação das agências federais precisam ser avaliados considerando seus resultados de médio e longo prazo.
O IVEPESP recomenda que sejam acompanhados indicadores como formação de doutores, cooperação científica internacional, publicações conjuntas, transferência de conhecimento e inserção profissional dos pesquisadores.
É particularmente importante assegurar oportunidades aos jovens cientistas, evitando que a excelência científica brasileira dependa exclusivamente de grupos consolidados.
9. Recomendações do IVEPESP
Com base nos resultados apresentados, o IVEPESP propõe:
1. Estabelecer uma política nacional de financiamento científico de longo prazo, com previsibilidade orçamentária e avaliação periódica dos resultados.
2. Fortalecer a pós-graduação brasileira, valorizando a formação de mestres e doutores e sua inserção nas universidades, institutos de pesquisa e empresas.
3. Ampliar a internacionalização científica, preservando programas de mobilidade e cooperação internacional.
4. Modernizar a infraestrutura de pesquisa, incluindo manutenção preventiva, atualização de equipamentos e segurança dos laboratórios.
5. Aprimorar os sistemas de avaliação científica, combinando indicadores bibliométricos com contribuições educacionais, tecnológicas, econômicas e sociais.
6. Reduzir as desigualdades regionais, criando condições para o fortalecimento de centros científicos emergentes em todas as regiões brasileiras.
7. Estimular a colaboração entre universidades públicas, privadas e empresas, valorizando tanto a pesquisa fundamental quanto suas aplicações.
8. Instituir um observatório nacional de indicadores científicos, com séries históricas, dados por instituição, área de conhecimento, região e natureza jurídica.
10. Proposta de investigação complementar: Observatório IVEPESP
O IVEPESP poderá desenvolver um levantamento específico sobre a presença brasileira na base Stanford/Elsevier, abrangendo o período de 2020 a 2026.
A investigação deverá responder a questões fundamentais:
Qual a participação das instituições públicas e privadas entre os pesquisadores brasileiros classificados?
Como evoluiu a participação das universidades estaduais, federais e privadas?
Quais áreas científicas apresentam maior crescimento?
Existe associação entre financiamento, infraestrutura, formação de doutores e impacto bibliométrico?
Qual a contribuição da cooperação internacional para os resultados?
Como a distribuição regional da excelência científica evoluiu nos últimos anos?
A metodologia deverá utilizar as bases originais da Elsevier, dados da CAPES, CNPq, FAPESP, INEP e demais fontes institucionais, observando as limitações de comparabilidade entre anos.
Esse estudo poderá oferecer subsídios relevantes à formulação de políticas públicas de ciência, tecnologia e inovação.
11. Considerações finais
Os resultados divulgados em outubro de 2026 representam um reconhecimento importante da contribuição brasileira à ciência mundial.
A liderança da USP e a participação expressiva da Unicamp e da Unesp evidenciam a relevância de instituições públicas consolidadas, apoiadas por políticas de formação de pesquisadores e financiamento científico construídas ao longo de décadas.
Entretanto, a concentração de aproximadamente um terço dos pesquisadores brasileiros classificados em apenas três universidades também revela a necessidade de ampliar as condições para o desenvolvimento da excelência científica em outras instituições e regiões do País.
A experiência paulista demonstra a importância da continuidade institucional, mas não significa que exista um único modelo de organização ou financiamento capaz de produzir bons resultados.
O verdadeiro desafio brasileiro não é apenas aumentar o número de pesquisadores presentes nas classificações internacionais. É transformar a capacidade científica nacional em educação de qualidade, inovação tecnológica, desenvolvimento econômico, melhoria das condições de vida e redução das desigualdades sociais.
A ciência deve ser reconhecida como patrimônio estratégico da sociedade brasileira e componente permanente de um projeto nacional de desenvolvimento.
O IVEPESP reafirma seu compromisso com a valorização da educação, da pesquisa científica e da inovação, defendendo políticas públicas fundamentadas em evidências, continuidade institucional e responsabilidade na aplicação dos recursos públicos.
Referências
Jornal da USP. Levantamento de Stanford aponta 284 pesquisadores da USP entre os mais citados do mundo. Michel Sitnik, 14 de outubro de 2026.
Ioannidis, J. P. A. Updated science-wide author databases of standardized citation indicators, versão 9. Elsevier Data Repository, 2026. DOI: 10.17632/btchxktzyw.9.
Del Fabbro, M. et al. Persistent anomalies in the Stanford/Ioannidis top 2% scientist’s database. Scientometrics, 2026.
Publisher coverage bias in the Stanford/Ioannidis top 2% of scientists rankings. Scientometrics, 2026.
Prof. Dr. Hélio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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