Colunistas · Opinião · Cidadania
A anatomia da omissão
Em artigo de opinião, Luís Mário Luchetta examina a abstenção, a responsabilidade individual e a participação cívica na construção do futuro do País.

Na Grécia clássica, berço das primeiras reflexões sobre o convívio republicano, aqueles que se recusavam deliberadamente a tomar parte nas decisões da pólis recebiam uma designação singular: idiōtēs. A palavra não carregava o sentido de ofensa intelectual que adquiriu nos séculos seguintes, mas apontava para uma falha moral evidente: tratava-se do indivíduo voltado estritamente para o próprio umbigo, incapaz de enxergar que a integridade do seu lar dependia diretamente da solidez dos muros da sua cidade.
A história é implacável com os que acreditam na inocuidade da neutralidade. Quando observamos o comportamento social em momentos de inflexão, a abstenção frequentemente tenta se fantasiar de virtude. O cidadão cético, desiludido com os vícios da política, cruza os braços e proclama com arrogante serenidade: “Nenhum deles me representa; portanto, lavo as minhas mãos”. Trata-se de uma das mais perigosas ilusões da modernidade. Na física da vida pública não existe o vácuo: quando a prudência, o trabalho e a honradez silenciam, a demagogia, o aparelhamento e o oportunismo ocupam o espaço de imediato. A água da bacia de Pilatos jamais limpou o peso de sua escolha.
A busca por um mandatário imaculado é sintoma de uma imaturidade cívica que não cabe mais a uma nação adulta. A política é, por definição, o terreno do imperfeito, do homem falível e das circunstâncias concretas. Esperar por salvadores da pátria desenhados sob medida para os nossos caprichos é o álibi perfeito para a covardia de não decidir. A maturidade nos ensina que escolher não significa assinar um cheque em branco de devoção, mas sim exercer o discernimento pragmático entre duas visões de mundo claramente contrastantes.
De um lado, perpetua-se a mentalidade paternalista que trata o cidadão como um incapaz tutelado, que gasta o que não tem em nome de uma generosidade ilusória e financia o presente hipotecando as próximas gerações. Do outro, reside a perspectiva da responsabilidade individual, do respeito a quem gera riqueza, da disciplina fiscal inegociável e da convicção de que a verdadeira dignidade nasce do mérito, do trabalho e das liberdades individuais.
Não se trata de conferir santidade a qualquer projeto, mas de reconhecer a rota elementar: um caminho aprofunda o abismo populista; o outro estabelece as fundações institucionais para que o País produza, cresça e preserve as regras do jogo democrático.
Omissão não é refúgio moral; é cumplicidade silenciosa com o resultado que vier. O voto de quem acorda cedo, empreende, educa seus filhos com retidão e cumpre suas obrigações civis tem exatamente o mesmo peso do voto dos grupos de pressão e dos profissionais do corporativismo estatal. Quando o primeiro desiste de comparecer, entrega de bandeja o leme da nação àqueles que vivem de perpetuar privilégios e benesses à custa do erário.
Nossa tarefa ética nestes dias cruciais vai além do nosso próprio comparecimento à cabine de votação. É imperativo exercer a liderança cívica no nosso círculo de convivência: despertar o jovem desencantado, confrontar o cinismo estéril dos céticos e lembrar aos hesitantes que o futuro não é um acidente meteorológico, mas uma construção deliberada. O Brasil não será salvo por messias, mas pode ser resgatado da decadência pela lucidez corajosa de cidadãos que recusam o silêncio confortável da omissão.
Sobre o autor
As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade de seu autor.